Eu te matei aquele dia.

Não chovia e nem fazia frio, contrariando o clichê das madrugadas bêbadas e solitárias.
Talvez você quisesse entender melhor como foi, mas assim já morto, não lhe faz diferença.

O fato é que eu vinha tomando a decisão em pequenas doses diárias.

Repetia teu nome de frente pro espelho enquanto cravava as unhas no rosto lambuzado das lágrimas todas que tu me causou.

[Era como se elas acumulassem - ainda que derramadas - e eu as fosse bebendo pra verter novamente em cachoeiras cada vez mais incessantes. Sempre mais longas e demoradas. Até que acabava, num quase suspiro de alívio. Curvava as costas, apoiava os cotovelos na pia e abaixava a cabeça deixando os cabelos me grudarem nos olhos.]
Fui mirabolando saídas.

Inventava quereres e anotava em pedaços de papel os segredos que não podia esquecer de te contar.

Repetia-os mentalmente pra que mesmo perdendo ou molhando os rascunhos, te sobrasse alguma verdade dos dias que vinham me consumindo.

E inventei desenlaces, simulei fugas, desenhei portas.

Mas acabava sempre querendo voltar pro teu colo, me entende?

Porque você não ia embora.

Se eu alongasse o olhar, ainda via teus dedos.
Tentei outras maneiras - e espero que isso se evidencie no que estou te dizendo.

Transformei minhas razões em outras.

Testei a elasticidade dos meus desejos e corri de olhos fechados, beirando algum risco - que eu sempre sabia não ser fatídico.

Mas disso eu só enxerguei meu rosto pálido de menina.

Ainda preciso de muito mimo pra abrir as pernas.

Não me convencia das invenções paleativas.
E então foi assim que resolvi te matar.
Talvez a frieza com que eu afirme, sem mais umidecer os olhos, te assuste.

Te repito: fui tomando a decisão aos poucos e, por isso, me acostumando com ela.

Assim sendo, acordei e enquanto partia o pão: te matei.

Solucei inaudível.

Apertei os olhos e cheguei a furar a ponta do dedo, tremendo um pouco. Era inevitável, me entende?

Acabaria acontecendo.
Não existe qualquer espécie de culpa, nem vestígio de sangue.
[Talvez uma frouxidão na alma, espaço de sobra nos braços e um assovio de vento constante. Me ajeito com o tempo, meu bem. Que do mal maior já não padeço.]


[... Um trecho de Clarisse Lispector, em Horas de Clarisse... ]


A ausência só mata o amor quando ele já está doente na data da partida.


Condessa Diane




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