Minha garganta estranha

Quando não te vejo

Me vem um desejo

Doido de gritar

Minha garganta arranha

A tinta e os azulejos

Do teu quarto, da cozinha

Da sala de estar


Venho madrugada

Perturbar teu sono

Como um cão sem dono

Me ponho a ladrar

Atravesso o travesseiro

Te reviro pelo avesso

Tua cabeça enlouqueço

Faço ela rodar


Sei que não sou santa

Às vezes vou na cara dura

Às vezes ajo com candura

Pra te conquistar

Mas não sou beata

Me criei na rua

E não mudo minha postura

Só pra te agradar


Vim parar nessa cidade

Por força da circunstância

Sou assim desde criança

Me criei meio sem lar

Aprendi a me virar sozinha

E se eu tô te dando linha

É pra depois te... Han!


Aprendi a me virar sozinha

E se eu tô te dando linha

É COMER VOCÊ!


Minha garganta estranha...

Aprendi a me virar sozinha

E se eu tô te dando linha

É pra depois te abandonar

Eh!

Aprendi a me virar sozinha

E se eu tô te dando linha

É pra depois te abandonar...



( Minha ilustre xará, Ana Carolina)


Tenho fases, como a Lua; fases de ser sozinha, fases de ser só sua.



Cecília Meireles


Se puder...sem medo.









Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava

Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo

Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha

Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo

Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta

O lençol amarrotado mesmo que vazio

Deixa a toalha na mesa e a comida pronta

Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio

Deixa o coração falar o que eu calei um dia

Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo

Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia

Deixa tudo como está e se puder, sem medo

Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço

Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa

Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito

Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta

Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso

Deixa o meu olhar doente pousado na mesa

Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso

Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa

Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo

Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande

Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo

Se o adeus demora a dor no coração se expande

Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa

Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência

Deixa a minha insanidade é tudo que me resta

Deixa eu por à prova toda minha resistência

Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro

Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila

Deixa pendurada a calça de brim desbotado

Que como esse nosso amor ao menor vento oscila

Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa

Deixa um último recado na casa vizinha

Deixa de sofisma e vamos ao que interessa

Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha

Deixa tudo que eu não disse mas você sabia

Deixa o que você calou e eu tanto precisava

Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia

Deixa tudo o que eu pedia... mas pensei que dava.



Oswaldo Montenegro

Strip-Tease
Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer.
Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos.
Não podia mais voltar atrás.
Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis.
Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou.
Ele perguntou o que poderia fazer por ela.
A resposta: sem preliminares.
Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci.
Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade.
Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem.
Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram.
Encontrei".
Por fim, a última peça caía, deixando-a nua
"Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.

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